segunda-feira, 7 de junho de 2010

Porcos tatuados


Porcos tatuados de Wim Delvoye o belga, que tatua porcos desde os anos 90 .






"Artista cria polêmica com porcos tatuados"





Grupos de defesa dos direitos dos animais protestaram contra uma exposição do artista belga Wim Delvoye no Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Nice. Na obra intitulada “Les Cochons Tatoués” ele expõe, como o nome indica… porcos tatuados. Um comunicado no site do museu explica que os poquinhos, sedados durante o processo, foram “tratados como estrelas”.

Porcos tatuados não chegam a ser uma novidade na coleção das extravagâncias que se tornaram um padrão recorrente na produção artística contemporânea. Tanto que os protestos partiram dos defensores dos animais – e não dos defensores da arte.









Arte contemporânea e BBB: tudo a ver?


Ex-BBB Fani e fotógrafo J.R.Duran são criticados por ‘censura’ a obra de arte






Um artista, Alexandre Vogler, concebeu a seguinte obra: recolher cartazes da revistaPlayboy da ex-BBB Fani espalhados pelas bancas de jornais da cidade, depois de eles sofrerem diversos tipos de intervenção popular: desenhos, rabiscos, rasgos, mensagens, perfurações etc. Um dos cartazes está reproduzido aqui do lado, para o leitor avaliar. Pois bem, convidado a participar de uma exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, foi informado de que os cartazes não poderiam ser expostos, por violar direitos de imagem: o departamento jurídico do museu não obteve autorização nem de Fani nem do fotógrafo J.R.Duran. O artista, indignado, acusou o museu de censura, recebendo o apoio imediato de dezenas de pessoas, numa rede social.
O episódio já chegou as páginas dos jornais. No Segundo Caderno de O Globo de hoje, Vogler declara: “A assessora da Fani disse que o trabalho não agregava coisas boas à imagem dela, como se ela pudesse autorizar ou não a realização de uma obra de arte.”
Compreendo o ponto de vista do artista, que se referencia em exemplos passados de arte participativa, de apropriações e outros procedimentos incorporados à prática artística contemporânea. Mas a declaração de Vogler me pareceu ingênua, reveladora de um certo descompasso com o mundo real. Já classificar esse episódio de censura é um equívoco completo.
Evidentemente, a liberdade artística não se sobrepõe às leis – caso contrário diversos crimes poderiam ser cometidos sob a proteção do “campo artístico”. Para dar um exemplo extremo, uma obra que incentive abertamente a violência, ou a pedofilia, ou a discriminação racial, sexual ou religiosa deve ser exposta num museu ou galeria? Podem até existir pessoas que acham que deve, mas a lei diz que não.
No caso em questão, trata-se da legislação relativa ao direito de imagem. Ora, Fani e J.R.Duran têm todo o direito de não autorizar a apropriãção das fotografias, feitas sob contrato para determinado tipo de uso – exploração comercial pela revista Playboy. Pessoalmente, posso até achar que depois de ela posar nua, depois de participar do BBB etc, essa atitude é criticável, mas é um direito dela e do fotógrafo. Fani e Duran não teriam nenhum controle sobre o resultado da obra artística, e dá para imaginar o que os “populares” escreveram e/ou desenharam nos cartazes…
Criticou-se também o departamento jurídico do MAM, alegando que ele deveria tomar partido da “liberdade artística”. Mais uma leitura equivocada das coisas: na vida real, instituições, públicas e privadas, contratam advogados para que eles defendam seus interesses e evitem litígios; se não fosse assim, o MAM não teria departamento jurídico, ou estaria jogando dinheiro fora. Ora, o departamento fez a consulta, as parte envolvidas disseram não, e a lei as ampara. O que existe de extraordinário nisso? Quem discordar das leis deve lutar para modificá-las, mas gritar “censura!” soa a nostalgia de tempos em que, justamente, as leis eram desrespeitadas a todo momento, atropelando direitos individuais.
Paradoxalmente (e significativamente), o episódio todo está servindo como marketing não somente para a ex-BBB Fani, mas também para o artista plástico autor da obra. Sinal, talvez, de que cada vez mais a arte e os artistas se valem de expedientes outrora restritos à publicidade e à indústria do espetáculo. Arte contemporânea e BBB têm cada vez mais a ver um com o outro.
 Fonte: Luciano Trigo

E Se Fossem Reais?

 È isso e se fossem  tão reais como Buzz, Na Imagem? Continuaria carismático e com seu traje colorido? Com a espera do novo filme andei pesquisando sobre e me deparei com esse super trabalho uma imagem  criada em computação gráfica pelo artista brasileiro Raoni Nery.


Conheça mais trabalhos aqui.

Via Smelly Cat.






  

Quem vê cara não vê coração


Comecemos esse post com um teste trivial, daqueles, estilo psicotécnico: você consegue dizer que sensação cada um dos rostos ao lado evoca? Imagino que as respostas dificilmente fugirão ao big six, as seis grandes emoções humanas. Durante décadas houve consenso entre cientistas e psicólogos quanto ao fato de raiva, medo, desgosto, surpresa, alegria e tristeza formarem um grupo de sentimentos suficientes para abranger toda a gama de reações passíveis de serem expressas por uma pessoa.


Apesar de eficiente, a teoria não previu uma variável importantíssima; assim como o mundo em que vivemos, nós também estamos em constante transformação. As situações cotidianas – que hoje parecem arraigadas em nosso comportamento – já são, na verdade, muito distintas das que os estudiosos consideraram para criar a classificação. Frente a incontestável percepção, fez-se necessário revisar a tal lista.


Em meio a muita controvérsia, interesse, gratidão, orgulho e confusão são alguns dos postulantes a novos sentimentos básicos. Na prática, funciona como aquele pacote de expansão que se baixa da página do fabricante para evitar bugs em determinado software. É o que poderia se chamar de  “Emoções Humanas versão séc. XXI”. No site científico New Scientist é possível encontrar o artigo que detalha a ocasião em que os recém-identificados comportamentos se manifestam, dentre os quais destaco a “elevação”.


Se o nome já soou poético, espere pela descrição: trata-se de um formigamento atrás do pescoço, acompanhado por calor no peito, lágrimas marejando os olhos e um leve estrangulamento, a sensação que muitos simpatizantes de Barack Obama reportaram ao ouví-lo em seu discurso de posse. Em outros contextos, há relatos de que a reação tenha sido observada também no Japão, na Índia e nos territórios palestinos, argumento que aponta para uma incidência universal. Se não me falha a memória, acho que senti isso uma vez, assistindo ao desfecho de um filme dos Trapalhões.


O tema, claro, dá muito pano pra manga, até porque, por se tratar de matéria absolutamente abstrata e individual, as emoções, além de incontáveis, parecem não caber em nenhum tipo de catalogação. Minha mulher, por exemplo, jura sentir as tais borboletas no estômago ao receber uma notícia feliz. Alguém já sentiu isso? Assim sendo, não resisti à tentação de sugerir a inclusão de alguns sentimentos que ultimamente têm chamado minha atenção, os quais, embora não mencionado pelo estudo, parecem bastante corriqueiros:


Frustração tecnológica – é o que ocorre quando o HD do seu computador queima, quando, após lermos um manual de cabo a rabo, somos incapazes de fazer funcionar uma máquina de café expresso, ou quando escrevemos aquele e-mail de 50 linhas que some antes de ser enviado.


Amor virtual – como ninguém ainda tentou descrever isso? É a paixão entre pessoas que nunca se viram, aquele namoro que começa na sala de bate-papo e nem sempre chega à vida real. Aliás, o que deve ser considerado como “vida real”? Bom, isso já é outra discussão, mas, sem dúvida, aí está uma forma diferente de amar.


Fadiga de hiperconexão – se você é uma daquelas pessoas que mantém  Myspace, Orkut, Twitter, Facebook, MSN, Fotolog, Flickr, tudo aberto ao mesmo tempo, e ainda lê blogs, notícias e conversa via chat com 13 pessoas, é provável que saiba a que me refiro.


Será que me esqueci de alguma coisa? Se alguém identificar um sentimento novo, ou mesmo um que seja bem particular e ainda não tenha sido citado, não hesite em descrevê-lo. Vamos incrementar essa lista!


Fontes: Globo.com

Superpoderes que (não) gostaríamos de ter


Posso dizer sem falsa modéstia que, com o passar dos anos, o exercício de pinçar cenas triviais do cotidiano e traduzi-las em pautas que servissem a esse espaço me transformou numa espécie de estudioso do comportamento humano. Em se tratando de matéria-prima tão delicada, é preciso sempre estar atento a quase imperceptível fronteira que separa a fofoca propriamente dita do interesse profissional.

Não foram poucas, portanto, as ocasiões em que a lisura me dissuadiu de dissertar sobre temas promissores, verdadeiros diamantes brutos da vida alheia, pela simples razão de envolverem pessoas queridas; há, também, casos de autocensura, decorrentes da impossibilidade de descrever determinada situação sem expor os protagonistas.

O ofício dos cronistas, por assim dizer, exige a vigência de um código de ética individual, uma espécie de bússola moral intransferível que norteia a escolha dos assuntos passíveis (ou não) de serem aprofundados. Dentre as regras estabelecidas, ficou acordado comigo mesmo que me reservo o direito de abordar todo e qualquer assunto que possa ser captado através da janela da minha casa.

Longe de mim soar como futriqueiro, mas se estou em paz, sentado no sofá lendo jornal, e o sujeito resolve parar na calçada debaixo da minha soleira para contar a um amigo as peripécias da noite anterior, que culpa eu tenho? Se o casal aproveita a noite serena para sentar sob o capô de um carro e discutir a relação, como continuar assistindo a reprise chata de um filme na TV? Aí já seria como pedir ao cachorro para tomar conta da linguiça!

A questão é delicada porque, mesmo não querendo ouvir, em meio ao calor da discussão, um “hum-hum” que fosse só serviria para concientizá-los sobre como sua intimidade estava escancarada a um completo desconhecido, e isso pode ter consequências. Afim de evitar reações imprevisíveis, o melhor é permanecer no anonimato, pegar uma pipoca na cozinha e aproveitar o espetáculo. Mas, se a discussão que se impõe no momento errado é um aborrecimento, o contrário disso costuma ser o pânico de qualquer bom observador incidental; a conversa que apenas passa por ele.

Aquele papo do qual se pescam algumas frases, suficientes para despertar profundo interesse, e que depois vai embora junto com seu interlocutor, sem deixar pistas do desfecho. “Olha, você não me conhece, mas eu acabei ouvindo, agora senta aí e termina essa história”, quem nunca sentiu vontade de dizer isso? Nessas horas bate a inveja do Super-Homem, e de sua superaudição.

Aos que ficaram com a impressão de suas intimidades estarem ameaçadas, um único conselho: relaxar. Todos nós somos, ainda que sem perceber, objetos constantes do voyerismo alheio. No mais, é o tal negócio, quem está na chuva… bisbilhotar é inerente à nossa natureza, e se não o fazemos mais, sejamos sinceros, é por falta de oportunidade. Por outro lado, seria terrível estar à par de tantos enredos, já imaginaram a confusão? Pobre Super-Homem, pensando bem, a superaudição não é dom, é castigo!


Fontes: Globo.com

Xô!


  Relembre, reveja, reviva. Retrospectiva. E listas, muitas listas. Dos melhores shows, dos piores micos, dos óbitos, dos fatos relevantes na política e nos esportes, das frases que marcaram, das tendências, das obsolescências, do que é relevante e do que já foi esquecido. Faltando poucos dias para o final do ano e da década, o que resta a esse que vos escreve a não ser engrossar o caldo? Como nadar contra a maré de saudosismo, que reboca qualquer tentativa de abordar outro tema senão o que ficou para trás?

Pois saibam que me recuso terminantemente a aderir ao tal sentimento; meu desejo é, portanto, fazer desse espaço uma tábua flutuante aos náufragos da melancolia, e a qualquer um que não pretenda gastar os dias que ainda restam em 2009 com o pescoço torto, olhando para o que passou. Não se trata de implicância ou de preguiça, muito pelo contrário, afinal, nesses últimos anos minha vida (…) . Vocês viram só como o assunto é capcioso? Quando menos se espera o saudosismo dá o bote. Xô!

Visto que minha resolução se encontrará constantemente ameaçada, decidi propor um desafio: pela primeira vez na história desse blog estarei aceitando sugestões de post. Pode ser o argumento de um conto, o comunicado de um fato pitoresco, a chance de ler sobre aquele tópico que você sempre esperou ser abordado e que nunca foi. Serão consideradas as ideias (sejam elas quais forem) enviadas até às 23:59h do dia 31. A única exigência é que não cheirem a mofo. Combinado? Então, mãos à obra!


Fontes: Globo.com

Eu Entro



Vamos começar com essas duas imagens acima. Provocantes? Elas são de um conhecido fotógrafo americano, Duane Michals, que começou a aparecer no circuito artístico nova-iorquino em meados dos anos 60. Suas sequências de fotos, com legendas que sugeriam uma narrativa (muitas vezes onírica), tornaram-se uma espécie de marca registrada – copiada indiscriminadamente até hoje…


Esses dois trabalhos que abrem o post são dos anos 80, mas têm a ver com os temas que o fotógrafo explora desde o início de sua carreira: o desejo – e nossa relação (nem sempre transparente, nem sempre feliz) com ele. Nesses trabalhos, Michals não poderia ser mais direto: eles se chamam “A parte mais bonita do corpo da mulher” e “A parte mais bonita do corpo do homem” – isso, claro, segundo o artista. “Nos sonhos mais antigos dos homens, os seios das mulheres persistem mesmo por muito tempo depois que seus desejos tornaram-se poeira”, escreve ele, em sua caligrafia claudicante, sobre o detalhe do corpo feminino. Sobre a cintura masculina, ele ressalta suas “curvas gêmeas delineadoras, femininas em sua graça, ’sulcando’ o tronco, guiando os olhos para baixo, rumo sua intersecção – o ponto do prazer”.


Você consegue dar definições mais inspiradas – dessas ou de outras partes do corpo humano (quem sabe onde você esconde seu desejo é você!), feminino ou masculino? Eu gostaria de ler…


Essas imagens me inspiraram por décadas (conheci o trabalho de Michals mais de perto quando morei em Nova York, em 1989), e não é à toa que eu as escolhi para falar hoje sobre nudez – numa continuação do assunto que propus no post anterior (mais sobre isso, daqui a pouco). Belas como elas são, você diria que essas fotografias seriam capazes de ofender o público médio? Posso afirmar quase com certeza que seu autor não as criou com essa intenção – e eu mesmo não tenho motivo algum para achá-las ofensivas.


Porém, elas foram o pivô de um episódio bastante pessoal, que vou relatar agora: há alguns anos fui convidado a preencher um espaço visual de um restaurante em São Paulo. É uma espécie de vitrine rotativa, onde frequentadores do local e artistas (no seu mais amplo significado, de designers a poetas), há anos, expõem suas idéias. Eis que um dia, fui eu então convidado a ocupar aquele espaço (enquanto frequentador, claro, não como artista…). Eu teria, teoricamente, a liberdade de apresentar qualquer idéia – e então me ocorreu que eu poderia fazer uma singela (insignificante, na verdade) homenagem às fotos do artista que tanto prazer me deu. Propus fotografar as mesmas partes do corpo masculino e feminino eleitas por Michals como as mais bonitas – mas os modelos seriam os garçons e garçonetes do próprio restaurante (famoso, entre outras coisas, por selecionar para o trabalho de servir as mesas o melhor da juventude que está querendo fazer um dinheiro enquanto termina a faculdade e/ou espera uma chance de montar um espetáculo).


Eles não seriam identificados – talvez apenas por seus namorados ou namoradas -, uma vez que as fotos originais não mostram os rostos, e eu pretendia seguir à risca esse modelo (inclusive no branco e preto). E com um “staff” de cerca de 20/30 pessoas, o anonimato estaria quase garantido. A resposta do restaurante: a idéia era ousada demais e poderia incomodar os clientes. Fiquei meio decepcionado com essa resposta – especialmente porque ela vinha de um lugar que se orgulha até hoje de servir hambúrgueres e outros quitutes para a fina flor da vanguarda artística… (não me sinto, nem de longe, um “artista de vanguarda”, mas você entendeu a decepção, não?).


Agradeci o convite, claro. Acabei não fazendo nenhuma instalação. E fiquei pensando… Já em pleno século 21, o que será que incomoda tanto as pessoas quando o corpo humano nu está em questão? De vez em quando – se vejo um trabalho de arte poderoso – essa inquietação volta à tona. E foi justamente a propósito da retrospectiva da artista performática Marina Abramovic, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que decidi convidar você para essa discussão. Nascida na extinta Iugoslávia, mas radicada nos Estados Unidos, Abramovic ficou conhecida por suas performances onde, desde o início dos anos 70, ela explora “os limites do corpo”.


Falar que uma artista envolvida com performances “explora os limites do corpo” é quase um pleonasmo (por isso as aspas na expressão). Mas no caso de Abramovic essa descrição é bem precisa. Se você visitou a última Bienal de São Paulo, talvez tenha esbarrado com uma série de vídeos de trabalhos antigos seus – e tenha ficado fascinado (como eu fiquei). Se não cinhece nada do seu trabalho, o youtube está aí para isso mesmo… Mas nessa exibição do MoMA – que termina no dia 31 deste mês e, ao que tudo indica, eu não vou conseguir visitar – a idéia foi não apenas mostrar vídeos, mas remontar um conjunto de suas performances mais importantes – com outros artistas/modelos -, e acrescentar mais um trabalho inédito.


Sua performance criada especialmente para a ocasião chama-se “The artist is present” (”A artista está presente”), e trata-se, tão somente, da figura da própria Marina Abramovic sentada numa cadeira olhando para quem quiser sentar-se na cadeira vazia em frente dela (se você quiser acompanhar ao vivo essa perfomance, o MoMA tem um link direto nas horas em que o museu está aberto). Só isso. Durante todos os dias da exposição.


Para este trabalho, a artista está  vestida… Mas o nu, que sempre esteve presente em suas performances passadas, está espalhado por várias peças da retrospectiva, causando diferentes níveis de desconforto e constrangimento nos visitantes. E talvez nenhuma delas incomode tanto quanto a que eu descrevi no meu último post, onde um homem e uma mulher nus ficam (quase) imóveis no meio de uma passagem, obrigando a quem quiser atravessar de uma sala para outra a esbarrar (quando não roçar) em um deles – possivelmente nos dois.


Foi engraçado ver algumas resposta enviadas à minha inocente pergunta “você entraria na sala?”. “Que graça teria a vida se a gente não aproveitasse as coisas diferentes”, escreveu a Magaly (que entraria). “Talvez entrasse engatinhando porque entre as pernas dos dois tem um espaço maior”, mandou Cesar Marx. “Não entro na sala não, fico no espaço estreito – se o casal for mais bonito que o da foto”, sugeriu espertamente o Caio. “Um pouco constrangida, sim, mas acho que passaria… Corpos nus na entrada?? Imagina o que terá lá dentro”, provoca Cynthia. “Arte?! Oh, claro… Não, muito obrigado”, ironizou o Márcio. A Yumi não entraria: “Não que eu ache feio e que não seja normal, mas é que me incomoda muito esse tipo de situação”. “Sem pestanejar, eu entraria, claro, esfregando-me no nu feminino”, arriscou o Bruno Silva, esquecendo-se talvez que o outro lado do seu corpo estaria “se esfregando” no nu masculino…


O fato é que ninguém ficou indiferente à idéia proposta – e posso ter quase certeza de que mesmo quem não mandou um comentário, mas leu o post, pensou no assunto… O mérito dessa provocação não é meu, claro, é da artista – que é genial! E que mérito é esse? O de nos fazer sentir provocados por uma coisa que parecia já conquistada: o nu. (Como observou bem Eva Pfannes, que “matou a charada” que eu propus logo no primeiro comentário”). Por que essa reação, se como eu já coloquei anteriormente – e vários comentários reforçaram – um corpo nu está longe de ser novidade? E não só nas artes plásticas? O nu não é novidade nem no nosso cotidiano – você mesmo, aqui neste espaço “livre” conhecido como internet, nunca caiu na tentação de conferir uma página de pornografia? Mais de uma talvez? Quem sabe ontem à noite… Mesmo assim, é pensar no assunto e sentir um frisson…


Sei que falar de pornografia é  um caminho fácil – até porque, é a forma mais hipócrita (e menos poética) de apreciação do corpo humano. (Com isso, claro, não estou pregando um discurso moralista em defesa do pudor, mas sim despindo, com o perdão do trocadilho, essa forma de erotismo de qualquer pretensão artística…). Mas como medir a honestidade de quem ainda tem receio de aceitar um desafio como esse proposto por Abramovic, mas não tem barreira alguma quando a idéia é se esbaldar num imaginário sexual virtual?


São coisas diferentes, claro… Mas a, digamos, matéria-prima é a mesma: um corpo nu. E nós temos sim um problema com isso. A começar pela referência ao nosso próprio corpo… Mas antes que isso vire uma discussão barata freudiana, quero só concluir dizendo que eu me divirto com essas provocações. Ainda mais neste país – este nosso país! – onde, desde o descobrimento, temos dificuldade em ocultar as carnes… Na exuberância dos trópicos, aprendemos a admirar corpos nus (ou seminus) – e a nos aproveitar deles. Tenho um prazer especial em, quando eu viajo a outro país, me apresentar como brasileiro e receber e receber aquele olhar de quem quer dizer: “ah, daquele lugar onde todo mundo anda pelado…”. E – talvez até, admito, por causa do meu passado ligado à dança – não tenho a menor dificuldade nem de encarar nem de exaltar (e eventualmente experimentar) um corpo nu. Ele deve sempre ser celebrado!


Mas admito que essa é uma relação complicada para muitas pessoas. O que não significa que a gente não possa se divertir discutindo isso por aqui.

Fontes: Globo.com
Marina Abramovic, Moma The Museum Of Modern

sexta-feira, 4 de junho de 2010

“Xampu: Lovely Losers”







Lançamento da editora Devir, “Xampu: Lovely Losers” é o primeiro de uma série de três álbuns escritos e desenhados pelo quadrinista brasileiro Roger Cruz, conhecido por emprestar seu traço à série “X-Men”. Nesta HQ, o autor se propõe a dividir experiências e angústias vividas na juventude, em histórias que falam sobre amizades, sonhos e frustrações.

No texto do informativo oficial do livro, o próprio autor esclarece como surgiu a ideia para a produção do álbum:





“Entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90, um pequeno apartamento na zona norte de São Paulo estremecia com o falatório, a gritaria, o tilintar de copos e garrafas e o volume no talo do aparelho de som 3 em 1. Embaralhadas com sons de guitarras, bateria e baixo, as palavras eram quase adivinhadas enquanto saíam, entre tragadas e goles, pelas bocas fumacentas. A todo instante, novos maços de cigarro, álcool e discos de vinil eram adicionados à combustão que ardia noite adentro. E tudo se repetia no fim de semana seguinte. Alguns voltavam e vinham com amigos que traziam amigos e outros voltavam no mês seguinte. Alguns demoravam a voltar e alguns não voltavam. Até que ninguém mais voltou. Eu também não voltei. Mas ainda me lembro de muitas coisas e conversei com várias pessoas. Agora, tudo o que eu sei sobre algumas delas está neste livro. Lembranças dos distantes anos 80.″

Para reconstruir este mosaico de memórias, Cruz centra-se em personagens como a desejada garota Nicole, uma escorpiana linda que cursava o primeiro ano de Química na USP e que gostava de Sombra, vocalista da banda de hard rock “The Suckers”. Ele, no entanto, não estava nem aí para o interesse dela. Após o fim da relação de ambos, ganha força a figura de Max, que ampara a garota e torna-se íntimo dela.

Durante as 80 páginas da narrativa, o leitor facilmente se impressiona com o traço ágil e de muita personalidade de Cruz, dotado de detalhes e expressões realistas. Já as referências gráficas a elementos arquitetônicos e rotineiros da capital paulista, como bares, becos e até pichações nos muros e paredes de banheiros dão fidelidade regional à trama.

“Xampu: Lovely Losers” prova que, além de ilustrador, Roger Cruz também é um brilhante roteirista e contador de histórias.

“Xampu: Lovely Losers”

Autor: Roger Cruz
Editora: Devir
Páginas: 80
Preço: R$ 29,50

Uma questão palpitante


Você está visitando uma exposição de arte. Uma retrospectiva de uma artista importante. Distribuídos em algumas salas, alguns corpos nus – não pintados em telas, ou representados em bronze, mas em carne e osso (e vivos). Você já está acostumado com isso, afinal, que novidade tem um nu hoje em dia, especialmente num museu – especialmente numa mostra de arte contemporânea? Aliás, de maneira geral, que novidade tem um nu nos dias de hoje? Mas eu divago…
Você prossegue com sua visita pelo museu, e então percebe que, para entrar uma determinada sala, você é obrigado a passar por uma porta onde estão – um de cada lado – um homem e uma mulher. Nus. O espaço entre eles é estreito. Muito estreito. Se você quiser ir em frente, vai ser obrigado (ou obrigada) a encostar em um deles – possivelmente nos dois. Mais que encostar: você teria que roçar naquelas figuras – que, só lembrando, estão nuas. E vivas.
Você entra na sala?



Fonte: Globo.com

Diga-me o que seus olhos querem enxergar…